
Em 1962, numa visita à Argentina o poeta americano Robert Lowell mostrou que não ousava apenas em seus versos. Ele ofendeu o ditador José Maria Guido em plena Casa Rosada, sendo expulso da residência oficial. Com a tarde livre, partiu para uma série de escaladas em monumentos públicos, perfomance que atingiu o clímax quando Lowell discursou nu no alto de uma estátua. Após aborrecimentos com médicos provincianos, voltou para casa tendo conhecido intelectuais do porte de Jorge Luis Borges cheio de ideias para novos poemas.
Esse retrato de um artista transgressor omite detalhes importantes. A bordo de 6 martínis duplos antes do almoço, lowell sabotou um evento presidencial em sua homenagem. As tais escaladas revelam seu instinto autodestrutivo-ele quase apanhou enquanto, pelado, declarava-se "o césar da Argentina". No encontro com Borges, o argentino conta que o americano "jogou-se no chão e ficou gemendo em posição fetal".
Paranóico, Lowell recorreu a comunistas para fugir do país, causando um incidente diplomático só solucionado com sua internação psiquiátrica-foram mais de 20 ao longo da vida, "Foram precisos 6 enfermeiros parrudos e uma camisa-de-força para contê-lo", lembra Keith Botsford, sua "babá" na viagem. A essa altura, o vencedor do Pulitzer vivia à base de álcool e remédios, cada vez menos produtivo e mais instável. Ele sofria de transtorno bipolar.
O surto de Robert Lowell mostra como é falso o charme dessa doença psiquiátrica, que pode levar aos extremos da euforia e da depressão. Há cada vez mais gente sofrendo de bipolaridade. Eles não precisam de admiração nem desprezo, mas de ajuda.
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