sexta-feira, 19 de junho de 2009

Uma atitude individual pode mudar muita coisa!


Em uma área urbana de poucos metros quadrados aconteceu uma grande transformação, que mudou a paisagem e a rotina de muitos moradores do bairro do Sumaré, na zona oeste de São Paulo. A confluência das esquinas das ruas Apinajés, Herculano e Soledade, deixava livre um cimentado de forma triangular, que servia como depósito de lixo e entulho, como estacionamento e abrigo de indigentes. A única coisa saudável ali era uma árvore, um Chapéu-de-Sol resistente e generoso, plantado por um vizinho há uma década. “Mudei para cá há três anos e vivia colocando faixas pedindo para que não jogassem lixo nessa área. Cansei de falar com as pessoas que faziam mau uso do lugar, mas eles reagiam debochando de mim. Pensei até em me mudar”, conta Bruno Giovanetti, jornalista, que mora em frente a área.


Numa cidade populosa e caótica como São Paulo, cada milímetro de solo é disputado na raça e as noções de cidadania são, facilmente, ignoradas. A velocidade com que tudo acontece na maior cidade da América Latina aniquila qualquer possibilidade de que haja uma certa gentileza urbana, isto é, ações de preservação do patrimônio físico e humano. Esse cantinho, então, era simplesmente mais uma prova concreta dessa realidade que parecia imutável. Até que um fato trágico e uma iniciativa com muita prontidão mudaram o rumo dessa história. Em outubro do ano passado, houve um incêndio ali. Os colchões dos moradores de rua foram queimados. Ninguém ficou ferido, mas as chamas consumiram uma parte da árvore e colocaram em risco a casa vizinha. Esse foi o ponto de mutação do lugar.


Jaime Prades, artista plástico e morador da Rua Herculano, resolveu tirar o entulho e conversar com os comerciantes que usavam o espaço como depósito de tralhas e, até, estacionamento. Mas não foi só: nos dois meses seguintes, ele trabalhou em um grafite enorme: munido de tinta e escada, aproveitou as manchas deixadas pelo incêndio na parede para grafitar pássaros gigantes e outras figuras lúdicas. Jaime fez do Chapéu-de-Sol suporte para a instalação batizada de “Árvore das Perguntas”. Quem passa se encanta pelos desenhos e não escapa da curiosidade de ler as mensagens penduradas na árvore: • “Por que jogamos lixo nas ruas?” • “Por que as pessoas não se preocupam umas com as outras?” • “Você se importa com a natureza?” • “Você conhece a sua origem e a dos seus ancestrais?” • “Quem somos nós brasileiros?” • “Por que tanto desperdício e tanta carência?”.


Estas são algumas das muitas questões que interagem com os passantes, convidados a fazer a conexão com seus aspectos mais vitais e humanos. “Ainda tem gente que joga lixo aqui, mas recolho”, diz Jaime. “Acho que uma das grandes chaves para resgatar o melhor das pessoas e da cidade, nestes tempos de tanta insegurança e caos. é a limpeza. Em vários níveis: limpeza da cidade, da rua, da casa, do corpo, das emoções. Numa reciclagem constante”, acredita o artista. “O grafite tem o incrível poder de demarcar territórios urbanos”, explica Bruno. “Depois do trabalho do Jaime a paisagem mudou de fato e foi um grande alívio para a vizinhança. Estou documentando todas as etapas dessa transformação, que será incluída na minha tese de doutorado”, completa o jornalista, que tem centenas de fotos e imagens captadas ali e vai incluir esse exemplo em sua tese de doutorado sobre “Grafite”, na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP.

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